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A Igreja é cheia de pecadores — e Ratzinger diz que já era esperado

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Resposta rápida

Que a Igreja esteja cheia de pecadores não é uma objeção contra a fé — é o que o cristianismo já supunha. Ratzinger distingue a santidade daquilo que se recebe, o Evangelho, da impecabilidade de quem o transmite. O ouro chega sempre misturado à 'ganga' humana; o erro é confundir os dois.

Muita gente larga a fé por causa da Igreja. Não por um argumento filosófico contra a existência de Deus — por uma conta histórica. As cruzadas, a inquisição, a venda de indulgências, a corrupção de clérigos, os escândalos que enchem as manchetes até hoje. A soma parece esmagadora, e a conclusão soa óbvia: uma instituição que fez tanto mal não pode ser guardiã de nada verdadeiro.

É uma objeção séria, e este texto não vai fingir que ela é pequena. Mas há uma resposta a ela que quase nunca aparece — e ela vem de um lugar inesperado: do próprio homem que escolheu o Credo para explicar o cristianismo, e que, no instante seguinte, começou a listar os defeitos do Credo.

Ele escolhe o Credo — e imediatamente mostra os defeitos dele

Joseph Ratzinger, na Introdução ao Cristianismo, acabara de decidir usar o Credo como guia do livro inteiro. Seria de esperar que ele agora o defendesse como um texto caído pronto do céu. Faz o oposto. A seção seguinte se chama, sem rodeios, “Limite e importância do texto” — e ele passa a mostrar que o Credo tem uma história humana, concreta e nada limpa.

A forma atual daquele texto não brotou intacta. Passou por Roma, pela Gália, por transformações litúrgicas, pela expansão da autoridade romana no Ocidente e até pela política imperial de Carlos Magno, que o usou como instrumento de unificação do império. Ratzinger chama isso pelo nome: “a tragédia do alheamento político da fé” — o momento em que algo religioso é posto a serviço de uma finalidade política. Oriente e Ocidente já se afastavam. O texto que se impôs como “romano” tinha, ele mesmo, sido trazido de fora para Roma.

Repare no gesto. Ele não esconde nada disso para proteger a fé. Ele coloca em cima da mesa, logo na entrada, tudo aquilo que um crítico usaria contra ele. E não é ingenuidade: é a própria tese.

O esplendor e a miséria vêm no mesmo pacote

A história do Credo, diz Ratzinger, carrega ao mesmo tempo o esplendor e a miséria da história da Igreja. Esplendor: a fé transmitida, o batismo, a confissão do Deus trino atravessando os séculos. Miséria: os conflitos, os interesses particulares, as rivalidades, a política, as divisões.

E as duas coisas não vêm separadas, uma para o domingo e outra para o porão. Vêm grudadas. É aqui que ele usa a imagem que organiza tudo — e vale conhecê-la, porque ela resolve mais do que parece.

O ouro e a ganga

Na mineração, ganga é a rocha sem valor que vem colada ao minério precioso. Você não tira do chão ouro puro; tira ouro dentro de pedra, misturado a impureza.

Para Ratzinger, é exatamente isso que acontece quando o Evangelho entra na história. Existe o ouro — o chamado que veio da Galileia. Mas ele passa pelas mãos de seres humanos, e junto vêm os interesses, as ambições, os nacionalismos, as disputas de poder, as incompreensões, as limitações de cada época. A resposta ao apelo da Galileia se mesclou com a ganga humana ao ingressar na história. A fé nunca chegou em estado quimicamente puro — e, segundo ele, nunca prometeu chegar.

Isso parece uma concessão embaraçosa. Não é. É a chave. Porque decorre diretamente daquilo que o cristianismo afirma sobre si mesmo: que Deus entrou na história em vez de fugir dela. Uma religião que quisesse preservar sua pureza fugindo do humano seria mais limpa — e seria outra coisa. O cristianismo aceita o escândalo de uma verdade transcendente que se transmite por mediações humanas imperfeitas. É a mesma lógica de quando dissemos que o Logos, o sentido do mundo, ganhou um rosto — o infinito chega até nós pelo finito. Por água, por pão, por palavras, por instituições, por gente falha. O salto rumo ao infinito realiza-se em miniaturizações humanas.

Grande em sua miséria, miserável em sua grandeza

Ratzinger não romantiza esse homem que carrega o ouro. Ele o descreve com uma frase que parece um nó e é, na verdade, uma radiografia: o homem é grande em sua miséria e miserável em sua grandeza.

Grande porque é capaz de algo extraordinário — abrir-se para Deus, transcender a si mesmo. Miserável porque consegue contaminar até essa abertura com o próprio ego. É a antropologia de Agostinho: o problema não está só nos atos claramente maus, mas na desordem que atravessa até os bons. Dá para amar e querer possuir. Servir e desejar reconhecimento. Defender a verdade e alimentar o orgulho. Buscar Deus e buscar a si mesmo dentro dessa busca.

Guarde esse “até” — ele é o eixo do que vem agora.

É por isso, e não apesar disso, que o perdão está no centro

Aqui está a virada mais funda do trecho, e a que quase ninguém espera.

Diante de toda essa sujeira histórica, a saída fácil seria uma de duas: ou negar os fatos, ou concluir que o cristianismo fracassou porque seus portadores foram incoerentes. Ratzinger não faz nenhuma das duas. Ele diz uma terceira coisa: é exatamente isso que revela por que o perdão está no coração do cristianismo.

Porque o cristianismo não começa supondo um homem impecável. Começa sabendo que o homem precisa ser reconciliado. E ele crava algo ainda mais forte: o homem é necessitado do perdão mesmo no que tem de melhor e mais puro. Não só nas piores ações — até as melhores carregam ambiguidade. Uma Igreja cheia de pecadores não é, portanto, uma refutação da fé cristã. É a confirmação exata do diagnóstico com que essa fé começa.

E o perdão, na estrutura cristã, não é só recebido — é recebido e passado adiante. É a mesma lógica prática de quando falamos do exame de consciência: você se reconhece necessitado, recebe, e por isso se torna capaz de dar. Uma Igreja de pecadores reconciliados não é o defeito do projeto. É o projeto.

O que isto NÃO faz

Convém dizer com todas as letras, porque é onde este raciocínio pode ser sequestrado: nada disso desculpa nada.

Reconhecer que o ouro veio misturado à ganga não santifica a ganga. Não transforma crime em detalhe, não pede que se feche os olhos, não serve de anistia a quem usou a fé como instrumento de poder ou pior. Pelo contrário: quem leva a sério a distinção entre o ouro e a rocha é justamente quem pode chamar a rocha de rocha sem medo de perder o ouro. A honestidade sobre os pecados da Igreja não é inimiga da fé — é filha dela. Quem precisa maquiar a história é quem confundiu as duas coisas.

E aqui aparece a distinção que a teologia faz há séculos e que resolve boa parte da confusão: a Igreja nunca afirmou a impecabilidade de seus membros — que fossem livres de pecado. Esperar isso é esperar o que o Evangelho jamais prometeu. A santidade de que se fala é a daquilo que é recebido e guardado, não a de quem recebe e guarda. Confundir os dois planos é montar uma objeção contra uma promessa que ninguém fez.

Então por que confiar justamente nesse texto?

Ratzinger é honesto até o fim, e ele mesmo formula a objeção contra si: se o Credo foi tão condicionado por processos históricos, culturais e políticos, por que tomá-lo como expressão normativa do cristianismo?

A resposta dele é cuidadosa, e é o oposto de um fundamentalismo. Ele não diz que o Credo é uma transcrição literal da Bíblia. Diz que ele é “o eco fiel da fé da Igreja antiga” — e que essa fé, por sua vez, guarda “o núcleo fiel da mensagem do Novo Testamento”. Existe uma cadeia:

Novo Testamento → fé da Igreja antiga → Credo.

Há mediação, sim. Mas mediação não é sinônimo de corrupção. A Igreja não inventou algo depois do Novo Testamento; ela recebeu, professou, condensou e interpretou o que recebeu. E — este é o critério que impede tudo de virar “é antigo, logo é verdade” — o Credo precisa ser continuamente reconferido com o Novo Testamento. A tradição não é o que se repetiu por muito tempo; é o que permanece ligado à origem. O movimento é circular e honesto: a Escritura gera a Igreja, que formula o Credo, que reenvia à Escritura. É a mesma postura de quem entende que duvidar e reexaminar não é o oposto de crer — é o que impede a fé de virar ídolo de si mesma.

O erro que decide tudo

Volte, no fim, para a objeção do começo — a conta histórica que faz gente largar a fé. Ela está certa nos fatos e pode estar errada na conclusão, e a diferença mora inteira numa escolha.

Diante do ouro misturado à ganga, há dois erros simétricos. Um é confundir a ganga com o ouro — tratar os pecados, a política, o poder como se fossem a própria fé, e defender o indefensável em nome dela. O outro, o mais comum hoje, é jogar fora o ouro porque ele veio sujo de ganga — concluir que, por causa dos crimes, não há tesouro algum ali.

Ratzinger recusa os dois. E é por isso que a Igreja cheia de pecadores nunca o escandalizou: ele já sabia, desde o começo, que era assim que a coisa entraria na história.

O erro não é enxergar a ganga na Igreja. É achar que, por causa dela, nunca houve ouro.

Fontes

  • Joseph Ratzinger. Introdução ao Cristianismo (1968), seção “Limite e importância do texto” — fecho do capítulo sobre a história e a estrutura do Símbolo Apostólico: a imperfeição histórica do Credo (Roma, a Gália, a uniformização política sob Carlos Magno, a “tragédia do alheamento político da fé”), o “esplendor e a miséria” da história da Igreja, a “ganga humana” à qual se mescla a resposta ao apelo da Galileia, o homem “grande em sua miséria e miserável em sua grandeza”, o perdão como necessidade central (“mesmo no que tem de melhor e mais puro”), o Credo como “eco fiel da fé da Igreja antiga” e “núcleo fiel da mensagem do Novo Testamento”, e o critério de reler sempre o símbolo a partir do Novo Testamento.

Perguntas frequentes

A Igreja é cheia de pecadores. Como ela pode ser verdadeira?

Porque a verdade da fé não repousa sobre a santidade dos seus membros, e sim sobre aquilo que eles recebem e transmitem. Ratzinger distingue as duas coisas: a santidade do Evangelho (o que se recebe) não é o mesmo que a impecabilidade de quem o carrega. O tesouro pode ser maior do que os portadores. Uma Igreja cheia de pecadores não contradiz o cristianismo — é exatamente o que o cristianismo pressupõe, já que ele começa afirmando que o homem precisa ser reconciliado, e não que ele é perfeito.

Os escândalos e crimes da Igreja na história não provam que a fé é falsa?

Provam que a Igreja é feita de gente, e gente falha — inclusive gravemente. Mas não decidem a questão da verdade da fé, que é outra pergunta. Reconhecer a lógica disso não apaga nem desculpa crime nenhum: pecado continua pecado, e a honestidade exige chamá-lo pelo nome. O que a história mostra é que o Evangelho sempre chegou misturado à 'ganga' humana — os interesses, a política, a vaidade. O erro é jogar fora o ouro porque ele veio dentro da rocha.

O que Ratzinger quer dizer com 'ganga humana'?

Ganga, na mineração, é a rocha sem valor que vem grudada no minério precioso. Ratzinger usa a imagem para descrever o que acontece quando o Evangelho entra na história: o ouro — o chamado de Cristo — chega sempre misturado à ganga humana, feita de interesses, ambições, disputas de poder e limitações culturais. A fé não chega em estado quimicamente puro. Isso não é um acidente embaraçoso a ser escondido: é a própria forma histórica do cristianismo, coerente com um Deus que entra na história em vez de fugir dela.

Qual a diferença entre infalibilidade e impecabilidade?

São coisas diferentes que costumam ser confundidas. Impecabilidade seria ser livre de pecado; infalibilidade, num sentido restrito e técnico, é outra coisa. A Igreja nunca afirmou que seus membros — nem seus líderes — sejam impecáveis. A distinção que resolve a objeção dos escândalos é justamente essa: a santidade daquilo que a Igreja recebe e guarda não depende da santidade pessoal de quem a compõe. Confundir as duas é esperar que uma comunidade de pecadores nunca peque — o que o próprio Evangelho jamais prometeu.

Por que o perdão está no centro do cristianismo?

Porque o cristianismo não começa supondo que o homem será impecável — começa sabendo que ele precisa ser reconciliado. Ratzinger vai além: o homem é necessitado do perdão mesmo naquilo que tem de melhor e mais puro, porque até seus melhores atos carregam ambiguidade. Por isso a estrutura cristã é receber e passar adiante o perdão. Uma Igreja de pecadores reconciliados não é uma falha do projeto: é o projeto.

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