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Quando você não escolhe a hora de acordar — e o que ainda depende de você

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Resposta rápida

Nem sempre dá para escolher se você vai acordar de madrugada — um bebê, uma dor, uma condição médica não negociam. Mas existe uma diferença enorme entre acordar por um motivo que você não controla e piorar ainda mais essa noite com hábitos que você controla. A primeira parte não é sua. A segunda é.

Quase tudo o que se escreve sobre sono parte de uma suposição silenciosa: a de que o seu despertar é culpa sua. Cortisol alto, tela demais, café tarde, cabeça acelerada. Conserta o hábito, conserta a noite.

Só que tem gente que acorda por um motivo que não escolheu. Um bebê. Uma dor crônica. Uma apneia. Um ronco do lado. Uma bexiga que não negocia. Uma doença.

Por muito tempo, eu li isso como uma sentença: se eu não controlo o motivo, não tenho nada a fazer.

Estava errado. E foi justamente quando o meu despertar deixou de ser negociável que eu entendi onde ainda havia escolha.

O que eu não controlo

Meu sono já era complicado muito antes do câncer. Tenho um histórico grave de retocolite ulcerativa, passei por uma colectomia total, e acordar de madrugada para ir ao banheiro sempre fez parte da minha vida durante as crises.

Quando veio o diagnóstico de colangiocarcinoma, tudo mudou de novo. Depois da cirurgia comecei a quimioterapia, e ela reativou meu intestino de forma agressiva. Hoje, na maioria das noites, eu acordo porque simplesmente preciso evacuar.

Não é ansiedade. Não é pensamento acelerado. É fisiológico.

Tem noite que levanto duas, três, quatro vezes.

Nenhuma rotina, nenhum protocolo, nenhuma técnica de respiração vai impedir isso enquanto o meu intestino estiver inflamado por causa do tratamento. Essa parte não está em disputa — e fingir o contrário seria mentira.

O que ainda depende de mim

Foi aí que a pergunta mudou. Ela deixou de ser “como eu não acordo?” e virou “o que acontece depois que eu acordo?”

Porque essa parte, sim, é minha.

Meu objetivo virou um só: levantar ainda meio dormindo, quase sem abrir os olhos, fazer o que preciso fazer e voltar para a cama o mais rápido possível. Evito olhar a hora. Evito pegar o celular.

Quando dá certo, eu durmo de novo. A noite tem um buraco, mas continua sendo uma noite.

Quando não dá certo, é como se o intestino colocasse o corpo inteiro em estado de alerta — e aí a minha cabeça acorda junto. Começa aquele ciclo que muita gente conhece: exame, tratamento, trabalho, tudo querendo ser resolvido às três da manhã.

Nessas horas, às vezes coloco uma live do Rosário baixinho, ou deixo alguma oração tocando. Não é sofisticado. Mas pelo menos impede que eu fique preso nos meus próprios pensamentos.

Nem sempre funciona. Quando não funciona, no dia seguinte acordo com a sensação de ter passado a noite inteira lutando para dormir, e não dormindo.

A coisa mais útil que eu aprendi: dormir não é dormir bem

Durante anos eu jurei que café não me fazia efeito. Eu tomava à tarde e dizia, com convicção: “durmo do mesmo jeito.”

E era verdade. Eu dormia do mesmo jeito.

O que eu não via é que dormir e dormir bem são coisas diferentes. Mesmo sem despertares a mais, mesmo sem demorar para pegar no sono, eu acordava menos descansado. O café não estava me tirando o sono. Estava tirando a qualidade dele, silenciosamente, por baixo.

Isso mudou a minha perspectiva mais do que qualquer técnica. Porque me obrigou a parar de avaliar as coisas pela sensação imediata — que é justamente onde a gente mais se engana. (A meia-vida da cafeína explica o mecanismo: ela continua lá, agindo, mesmo quando você não sente.)

O que eu ainda não consegui

Não vou fingir que virei um exemplo.

Continuo usando telas demais à noite. Ainda levo o celular para o quarto. Ainda assisto televisão algumas vezes antes de dormir. Sei que isso provavelmente não ajuda, e é uma das próximas coisas que quero mudar.

A respiração eu sei que preciso retomar — acabei deixando de lado durante o tratamento. Faz sentido voltar, principalmente nas noites em que o intestino me desperta e a cabeça resolve entrar no jogo também.

Continuo tomando chá. Continuo usando melatonina. Nada disso resolveu.

A diferença que muda tudo

Aqui está a coisa que eu queria ter entendido anos atrás:

Existe uma diferença enorme entre acordar por um motivo que eu não controlo — e piorar ainda mais essa noite por hábitos que eu posso controlar.

O intestino não é negociável. O café das cinco da tarde é. A tela até a hora de deitar é. Pegar o celular às três da manhã e perder quarenta minutos é. O horário irregular é.

Se eu somo um despertar que não escolhi com uma noite que eu mesmo sabotei, o resultado não é a soma — é a multiplicação.

Os estoicos têm um nome para isso, e ele é mais velho que qualquer ciência do sono: a dicotomia do controle. Separe o que depende de você do que não depende. Aja no primeiro. Aceite o segundo — não por resignação, mas porque brigar com ele só gasta a energia de que você precisa para a parte que é sua.

Aplicado ao sono, isso deixa de ser filosofia e vira uma conta bem prática: eu não posso escolher se vou acordar. Posso escolher, em grande medida, como volto.

O que eu busco hoje

Não é ter noites perfeitas. Não é “dormir como um bebê”. Não é nenhuma promessa que eu não posso cumprir.

É fazer com que, nas noites difíceis — que infelizmente ainda existem, e vão continuar existindo —, eu tenha mais chances de voltar a descansar o mais rápido possível.

Considerando tudo o que estou enfrentando, isso já faz uma diferença enorme.

E se você também acorda por um motivo que não escolheu — o bebê, a dor, a doença, a bexiga, o barulho — talvez valha trocar a pergunta. Não “como eu paro de acordar?”, que às vezes não tem resposta. Mas “o que, nessa noite, ainda é meu?”

Quase sempre é mais do que parece.

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